Título original: ‘Kick-Ass’;
Realizado por: Matthew Vaughn;
Elenco Principal: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Mark Strong, Nicolas Cage e Christopher Mintz—Plasse;
Argumentista: Jane Goldman e Mathew Vaughn;
Género: Comédia, Acção;
Orçamento: 30 milhões $;
Duração: 1h57min.;
Estreou em Portugal: 8 de Abril de 2010;
Classificação: Maiores de 16.
São tempos de sonho estes que os fãs de comic books vivem. Hoje em dia, qualquer propriedade de banda-desenhada, com maior ou menor sucesso, com poucos, muitos ou até nenhuns fãs é adaptada ao grande ecrã. Cabe aos envolvidos na adaptação – realizador, produtor, actores, etc - a habilidade para a afastar da mediocridade e a fazer distinguir das demais.
‘Kick-Ass’ – o comic book - é uma dessas propriedades com muito pouco tempo no mercado. Chegou ao público em 2008, com o génio de Mark Millar (autor de ‘Wanted’) a escrever os textos e John Romita Jr. a ilustrar e, rapidamente, chamou a atenção de Hollywood por mérito próprio. E se um dia, um desses milhões de fãs de banda-desenhada espalhados pelo globo, rapaz ou rapariga, saudável, sem qualquer perturbação mental, (para além de passar o dia a ler comic books) super-poder ou desejo de vingança, decidisse copiar os seus heróis favoritos, vestir um fato ridículo e partir para as ruas tentar impor a ordem apenas por desejar imitar aqueles que passa horas a vangloriar? É isto que Dave Lizewski (Aaron Johnson) decidi fazer. Encomenda um fato ridículo do e-bay, arranja dois bastões e parte à procura de impor justiça, acabando por levar tanto no corpo, ao mesmo tempo que descobre que não é o primeiro a ter a ideia de fazer justiça pelas próprias mãos e abre caminho à entrada de novos vigilantes mascarados.
‘Kick-Ass’, tal como, por exemplo, ‘Watchmen’ consegue fazer ruir a típica ideia de super-herói que nos tem sido vendida, desconstruindo aquela habitual imagem poética de um ser com uma alma maior que a vida, repleto de integridade, valores, coragem e determinação, sem nunca se tornar numa reflexão filosófica, deprimente e profunda que a obra de Alan Moore é. '”Sem poderes, não existe responsabilidade'” diz Dave Lizesesski a uma dada altura e com esta frase, fecha-se uma janela de oportunidades criativas e abre-se um portão de novas, audaciosas e entusiasmantes oportunidades. Impulsionado pelas excelentes interpretações de todo o elenco, em especial de Big Daddy (Nicolas Cage) – confirmando-se que o mesmo se encontra a subir de forma - e Hit Girl (Chloe Moretz) – esta miúda vai ser uma estrela – este não é um filme para o espectador mais sensível, uma vez que nem todos conseguirão aguentar ver tanta violência ou má-linguagem.
Seguindo uma linha narrativa algo divergente da BD em que se baseia– com algumas alterações mais ou menos evidentes – claramente, de forma a dotar a obra de maior coesão e tornar o filme “mais directo ao assunto”, Mathew Vaughn realiza um filme do qual se pode orgulhar, mesmo que o sucesso comercial do mesmo nunca atinja os níveis de um ‘Iron Man’ ou ‘Spider Man’ é bom ver que ainda existem pessoas em Hollywood dispostas a andar de “porta em porta” a tentar reunir orçamento para realizar algo que nenhum estúdio ousava pegar. Isto é um estrondo visual, uma explosão de hormonas, de violência, com surpreendentes quantidades de humor, linguagem rude, tão politicamente incorrecto, que poucas serão as pessoas que não ficarão abismadas e até enojadas pela heroína principal ser uma miúda de 11 anos que pragueja que nem um marinheiro de alto-mar, lida com qualquer tipo de artilharia que nem oficial do Exército e não apresenta qualquer tipo de remorso por matar mais de 5 pessoas à navalhada a sangue frio. Uma abordagem tão inovadora a todo este mundo dos heróis de BD, que várias vezes inspirei fundo para sentir o ar puro de terreno virgem. E se acham que o filme é muito violento, leiam a BD.
Infelizmente, nem tudo é perfeito. Ao longo de todo a obra nunca senti uma conexão com as personagens. Nem mesmo nos momentos mais, digamos, dramáticos do filme. Ao querer ser tão divertido e violento, a ligação emocional ao espectador fica algo fragilizada e carecida. Se para alguns isso é bom, para mim é um defeito não me sentir emocionalmente ligado à jornada dos personagens, o que não invalida que este é um filme que não se pode deixar fugir sem dar uma vista de olhos.
7/10
